terça-feira, 20 de outubro de 2015

maybe we'll find a brand new ending

Ela era dona de uma alma cheia de cor. 

Assim como o azul, sabia ser tranquila e se adaptar tanto aos períodos de tempestade quanto a calmaria inquietante. Assim como o vermelho, ela queimava por dentro e por fora e aquecia almas desgastadas com o calor do seu próprio corpo. Assim como o verde, era paciente o suficiente para compreender que cada rio tende a seguir seu próprio ritmo, e eu e você e ela e cada um de nós é um rio sem fim.

Ela era dona do coração mais puro que este mundo já teve a oportunidade de conhecer.

O problema é que esse mundo não está preparado para tantas cores. Esse é um mundo coberto de cinza, cinza do primeiro fio de cabelo até o dedinho do pé. Mesmo assim ela tentou. Deu o melhor de si, usou suas melhores cores para fazer deste mundo um lugar melhor. Embora não seja fácil mudar o que nem ao menos quer ser mudado, ela jamais perdeu a fé.

Imagine então o tamanho de sua surpresa ao notar que em algum momento, no meio do caminho, ao virar uma esquina (não lembro exatamente qual esquina, pois esse é um mundo cheio de esquinas) ela notou que a fé não mais caminhava ao seu lado. A fé havia dado meia volta e seguido outro rumo, outra direção. E o que aconteceu com a menina de mil e uma cores quer perdeu a fé?

domingo, 18 de outubro de 2015

look for the girl with the broken smile



Júlia não fazia ideia. Ela vivia sua vida, acordava todos os dias, tomava banho, escovava os dentes e lutava contra seu cabelo rebelde, para depois deixar um "bom dia" no ar enquanto passava pela portaria em direção à garagem. Chegava sempre atrasada com aquele sorriso envergonhado e um cadarço desamarrado, atraindo o olhar de repulsa da chefe que insistia que tênis all-star não se encaixava no "perfil da empresa". Passava horas digitando, colocando ocasionalmente o bocal da caneta entre os dentes quando surgia-lhe alguma ideia valiosa e mordendo o mesmo bocal com uma força considerável quando algo não se saia muito bem. Almoçava todos os dias, pontualmente ao meio-dia, com Andreia, a senhora da limpeza que lhe contava histórias e histórias sobre o "seu Theodoro", o homem que roubou seu coração e que pelo que ela descrevia deveria ser o homem dos sonhos de qualquer mulher. Corria de volta para sua sala, sempre com alguns minutos de atraso, com aquele cadarço ainda desamarrado e entregava sorrindo ao Seu Rodolfo, o segurança, uma embalagem com seu sanduíche predileto. Saia do trabalho às cinco em ponto, com os ombros doendo e a cabeça cheia de problemas não solucionados. Listava mentalmente os itens existentes (e ainda no prazo de validade) na sua geladeira. Atrapalhava-se com as chaves, chutava os sapatos para um canto qualquer e deitava no sofá enquanto a mente vagava e subitamente a fazia lembrar-se de sua solidão. Quando não pensava sobre ela, Júlia era uma mulher muito feliz e completa, mas vez ou outra não conseguia controlar seus pensamentos e sentia-se só. Ela tinha conquistado tudo o que sonhou e na maior parte do tempo era feliz, sim, mas às vezes essa sensação a inundava como um tsunami. O que aconteceu no meio do caminho? O que ela perdeu? Olhava-se no espelho com frequência e listava seus defeitos com precisão cirúrgica. No fim das contas, acabava abrindo a geladeira para pensar e depois de um bom banho e um bom vinho, esquecia-se da visitante indesejada.

Thomas não fazia ideia. Ele vivia sua vida, acordava todos os dias, tomava banho, escovava os dentes e bebia um café forte enquanto lia o jornal do dia e sorria para o horóscopo. "Você vai conhecer o amor da sua vida hoje." Grande bobagem! Só por ser sagitariano hoje iria conhecer a mulher de sua vida? Quem escreveu esse roteiro? Conta outra. Chegava pontualmente às sete horas ao trabalho, com o terno perfeitamente alinhado, e se encaminhava para sua mesa perfeitamente arrumada. Reclamava mentalmente da internet enquanto fazia algumas pesquisas e enrugava a testa ao notar que já passavam das onze e ele ainda não havia terminado o relatório. Alarmou-se com o barulho de sua barriga, alertando-lhe sobre o horário de almoço, e desceu para fazer um lanche rápido no restaurante da esquina. Voltava para sua mesa pontualmente às treze horas e como normalmente deixava o prédio após o horário de serviço, surpreendeu-se ao notar que havia terminado seus afazeres mais cedo. Levantou-se, pegou suas coisas e deixou o prédio. Enquanto assoviava uma canção dos Beatles, fez sinal para um táxi e nem reparou quando uma mulher passou correndo em sua frente e entrou no táxi que havia acabado de chamar. "Acho que esse táxi é meu". Ela sorriu. "Me desculpe". Ele sorriu e finalmente a olhou. Como alguém podia ter um sorriso tão fantástico? E o que dizer daquele cabelo? Thomas queria cheirá-lo. Cheirá-lo? Sim, cheirá-lo. Ele sorriu. "Pode ficar, eu pego o próximo". "Para onde você vai?" "São Valentim, do outro lado da cidade". "Vou ficar no caminho, podemos dividir." Ele sorriu. Ela sorriu. "Claro". Ele entrou no táxi, ela deu o endereço ao taxista e ele deu o dele. "Meu nome é Júlia." "Meu nome é Thomas." 

Eles não faziam ideia.