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sábado, 9 de janeiro de 2016

broken hearted girl

Choveu hoje. Lembrei de você. Veio aquela vontade de ficar na cama enrolada em você até você reclamar que seu braço já está doendo e que de qualquer forma você precisará aparecer no escritório. Me lembrei da vez em que você perdeu os óculos e reclamou da bagunça que eu fazia, só pra depois me carregar em seus braços e me levar para o banheiro. Lembrei também da vez em que você fingiu esquecer meu aniversário durante uma manhã inteira para no meio do dia me "sequestrar" e me levar em uma das viagens mais incríveis da minha vida. É, você era o cara... E o melhor de tudo é que você era o meu cara. Eu ainda guardo coisas. Coisas minhas, suas e nossas. O lado bom e o lado ruim, Porque, afinal de contas, é disso que somos feitos. E embora você não esteja mais aqui, tudo que é seu ficou, inclusive eu.

FELIZ ANO NOVO

domingo, 18 de outubro de 2015

look for the girl with the broken smile



Júlia não fazia ideia. Ela vivia sua vida, acordava todos os dias, tomava banho, escovava os dentes e lutava contra seu cabelo rebelde, para depois deixar um "bom dia" no ar enquanto passava pela portaria em direção à garagem. Chegava sempre atrasada com aquele sorriso envergonhado e um cadarço desamarrado, atraindo o olhar de repulsa da chefe que insistia que tênis all-star não se encaixava no "perfil da empresa". Passava horas digitando, colocando ocasionalmente o bocal da caneta entre os dentes quando surgia-lhe alguma ideia valiosa e mordendo o mesmo bocal com uma força considerável quando algo não se saia muito bem. Almoçava todos os dias, pontualmente ao meio-dia, com Andreia, a senhora da limpeza que lhe contava histórias e histórias sobre o "seu Theodoro", o homem que roubou seu coração e que pelo que ela descrevia deveria ser o homem dos sonhos de qualquer mulher. Corria de volta para sua sala, sempre com alguns minutos de atraso, com aquele cadarço ainda desamarrado e entregava sorrindo ao Seu Rodolfo, o segurança, uma embalagem com seu sanduíche predileto. Saia do trabalho às cinco em ponto, com os ombros doendo e a cabeça cheia de problemas não solucionados. Listava mentalmente os itens existentes (e ainda no prazo de validade) na sua geladeira. Atrapalhava-se com as chaves, chutava os sapatos para um canto qualquer e deitava no sofá enquanto a mente vagava e subitamente a fazia lembrar-se de sua solidão. Quando não pensava sobre ela, Júlia era uma mulher muito feliz e completa, mas vez ou outra não conseguia controlar seus pensamentos e sentia-se só. Ela tinha conquistado tudo o que sonhou e na maior parte do tempo era feliz, sim, mas às vezes essa sensação a inundava como um tsunami. O que aconteceu no meio do caminho? O que ela perdeu? Olhava-se no espelho com frequência e listava seus defeitos com precisão cirúrgica. No fim das contas, acabava abrindo a geladeira para pensar e depois de um bom banho e um bom vinho, esquecia-se da visitante indesejada.

Thomas não fazia ideia. Ele vivia sua vida, acordava todos os dias, tomava banho, escovava os dentes e bebia um café forte enquanto lia o jornal do dia e sorria para o horóscopo. "Você vai conhecer o amor da sua vida hoje." Grande bobagem! Só por ser sagitariano hoje iria conhecer a mulher de sua vida? Quem escreveu esse roteiro? Conta outra. Chegava pontualmente às sete horas ao trabalho, com o terno perfeitamente alinhado, e se encaminhava para sua mesa perfeitamente arrumada. Reclamava mentalmente da internet enquanto fazia algumas pesquisas e enrugava a testa ao notar que já passavam das onze e ele ainda não havia terminado o relatório. Alarmou-se com o barulho de sua barriga, alertando-lhe sobre o horário de almoço, e desceu para fazer um lanche rápido no restaurante da esquina. Voltava para sua mesa pontualmente às treze horas e como normalmente deixava o prédio após o horário de serviço, surpreendeu-se ao notar que havia terminado seus afazeres mais cedo. Levantou-se, pegou suas coisas e deixou o prédio. Enquanto assoviava uma canção dos Beatles, fez sinal para um táxi e nem reparou quando uma mulher passou correndo em sua frente e entrou no táxi que havia acabado de chamar. "Acho que esse táxi é meu". Ela sorriu. "Me desculpe". Ele sorriu e finalmente a olhou. Como alguém podia ter um sorriso tão fantástico? E o que dizer daquele cabelo? Thomas queria cheirá-lo. Cheirá-lo? Sim, cheirá-lo. Ele sorriu. "Pode ficar, eu pego o próximo". "Para onde você vai?" "São Valentim, do outro lado da cidade". "Vou ficar no caminho, podemos dividir." Ele sorriu. Ela sorriu. "Claro". Ele entrou no táxi, ela deu o endereço ao taxista e ele deu o dele. "Meu nome é Júlia." "Meu nome é Thomas." 

Eles não faziam ideia.

quinta-feira, 5 de março de 2015

a four letter word

*Esse texto fica muito mais bonito se for lido ao som dessa música.

Eu sempre tive medo, desde que me entendo por gente. Não consigo lembrar de uma única época da minha vida em que esse sentimento não existiu. Medo de altura, de escuro, de elevador, de atravessar a rua e, o pior de todos, medo de mim mesma. Eu não sou confiável. Nunca me permiti ter grandes sonhos, por que, afinal de contas, de que servem sonhos nas mãos de alguém que possui a habilidade de destruir qualquer coisa que toca? Por isso, decidi não mais sonhar. O medo me prendeu. Me prendeu a pessoas erradas, a caminhos tortuosos e, principalmente, a escolhas precipitadas que me levaram rumo a abismos. Abismos nos quais eu me perdi, abismos nos quais eu decidi ficar.

Medo, meu mais fiel companheiro. Até você aparecer.

Muitos dizem que devemos nos amar primeiro para que outras pessoas possam nos amar. E eu, que sempre achei que isso fosse verdade, havia aceitado que não havia uma saída para mim. Eu só sentia medo, não conhecia nenhum outro sentimento. Era só medo, medo, medo.

Mas então você abriu uma brecha, você deixou a luz entrar, um pouquinho mais a cada dia, e você me estendeu a mão. Não daquele jeito dominador, colocando todos os dedos para trabalhar de uma só vez. Não, com você as coisas sempre são diferentes. Você me estendeu um dedo de cada vez. E enquanto eu estava ali sendo resgatada do fundo do poço, você sorriu para mim, sorriu com todo o corpo, mas principalmente com os olhos. E você me disse que não tinha problema ter medo, e que eu podia confiar em você. Então eu te segui. E foi como seguir uma chuva de estrelas cadentes. Um pingo de cada vez. Uma palavra de cada vez. Um toque de cada vez.

Você foi paciente. Você esperou por mim. Esperou que eu te desse uma chance e eu, por mais estranho que possa parecer, te dei. Você aproveitou a oportunidade e enquanto eu te ofereci apenas um abraço, você me ofereceu "algo mais". Eu não sabia o que era, só sabia que era mais. Aquilo era maior do que o meu medo, maior que qualquer sensação que eu já havia sentido. Como aquilo conseguia caber dentro de mim? Era muito, mas era bom. Era quase confortável. Foi tanto, que não sobrou nada para alimentar o medo. O medo definhou, ficou só amor.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

I remember it well

Bom, a primeira vez que eu te vi. Quando foi mesmo? Ah, sim. Primeiro dia, primeiro horário, sala de aula. Te vi sentada na última carteira fazendo algo que nenhum dos outros 37 alunos ali presentes estava fazendo: prestando atenção na aula. Realmente prestando atenção, sabe? Você tinha até aquela ruguinha na testa que você tem quando está concentrada. E você tinha aquele cabelo curto e bagunçado com essa franja que insistia em cair por cima dos seus óculos. Sim, você usava óculos e aparelhos e all stars. Sei que você não gosta de lembrar desse seu estilo, digamos assim mas eu me lembro. Afinal, como eu poderia esquecer? E como eu poderia resistir? Você estava tão fofa naquele dia. 

Eu sei, eu sei. Fofa não é exatamente um dos adjetivos que as garotas gostam de ouvir, mas fazer o que se foi a primeira coisa que veio em minha mente? Nunca fui bom com adjetivos. Para falar a verdade, nunca fui muito bom com as palavras. Esse, como todos nós sabemos, sempre foi o seu dom! Eu fazia contas, consertava coisas, contava piadas e gostava de cozinhar.

Então por me faltar palavras, ou por outras razões, sempre achei que você deveria ser transformada em um adjetivo, um que fosse sinônimo de perfeição ou algo assim. Como alguém poderia ser tão angelical e ao mesmo tempo ter essa chama incandescente no olhar que liquidava com a minha capacidade de falar. Eu, que sempre fui o "fanfarrão" da turma, travei completamente após te dizer o primeiro "oi". Mas não me culpe. Por favor, não me culpe! Foi você que estava com aquela caneta na boca e aquele perfume só seu, uma mistura perfeita entre algo doce e forte. Eu só queria ficar ali te olhando e sentindo aquele cheiro. 

Mas ai você balançou as mãos na minha frente e me perguntou se eu precisava de ajuda. Eu não sei, eu precisava? Eu havia esquecido completamente como funcionava todo esse lance de se comunicar, usar as palavras... transformá-las em frases então, nem pensar.

Quando finalmente me recompus, perguntei se você estava indo para Calculo II naquele momento e você confirmou, Logo perguntei se poderia levar suas coisas para você. Uma expressão estranha cobriu seu rosto. Parecia que você estava entre surpresa e ofendida, mas quando respondeu que sim, eu poderia carregar suas coisas, eu sabia que essa resposta iria mudar todo a minha semana, talvez até a minha vida, de alguma forma.

Conversamos sobre tudo e nada durante todo o caminho até a sala, entretanto quando chegamos você agradeceu a ajuda e sentou-se em sua carteira habitual. Resolvi me sentar em minha carteira habitual também, mas se antes eu já não prestava atenção em Calculo II, hoje o professor não estava conseguindo conquistar nenhum segundo da minha atenção. Eu fiquei te admirando durante 1 hora inteira. Viu o que você fez comigo?

É eu confesso, naquele semestre eu posso ter te perseguido um pouco, porque, convenhamos, você era bastante difícil, mas nunca me arrependi. Deu trabalho, mas conquistei sua amizade aos poucos e conquistei também algo extremamente valioso para mim e que até hoje eu luto para manter aquecido e forte todos os dias: o seu amor. 

(...)
Trecho dos votos de casamento escritos por P para C, em 2001.

domingo, 28 de dezembro de 2014

we're better together

Somos tão iguais. Gostamos de dias chuvosos, de caminhadas na praia, de admirar o pôr do sol e muitas outras coisas que todos os nossos amigos definem como "clichê". Gostamos até das mesmas músicas (o que, por sinal, nos salvou de muitas possíveis discussões acerca de que show deveríamos assistir). Você e eu somos tão esquisitos e isso é bom. Afinal, passei boa parte da minha vida me sentindo uma extraterrestre nesse planeta até te conhecer e ver que existe gente como eu, e até existe gente que admira minha esquisitice.

Apesar de todas as nossas semelhanças, somos também muito diferentes. Mas até isso é bom, sabia? Aprendi muito com nossas diferenças. Aprendia a ceder e também a brigar pelo que eu quero, especialmente quando o que eu quero é um músico de 24 anos, que pensa como um senhor de 70 anos.

Acredito que minha vó nos definiu super bem naquele churrasco de domingo no qual ela nos pegou brigando pelo controle remoto ao mesmo tempo em que gargalhávamos e perdíamos o respiração. Ela disse "vocês são mesmo duas caras de uma mesma moeda". Confesso que não havia dado tanta atenção naquele dia, mas agora vejo. Não era mais uma das divagações da vó Pérola, era a mais pura verdade. Eu e você somos tão um, que precisamos estar em dois corpos distintos para atender a toda complexidade do nosso ser.

Não faz mal ser um ser só, moço. É tão bom me ver em você de vez em quando, e é tão bom quando você diz que enxerga um pouco de ti em mim também.

sábado, 13 de dezembro de 2014

need ur luv


"Satisfaça minha alma", disse Bob. "Fique ao meu lado", disse Ben. "Eu quero segurar sua mão", disseram Paul e John. Estavam lá todas as dicas, bem na sua frente. Não há nenhum quebra-cabeças a ser montado ou mistério a ser resolvido. Mulher é bicho simples. É só saber ficar ao lado dela e se afastar também, nos momentos em que ela disso precisar.

Se ela te disser que dois mais dois são vinte e sete, você provavelmente deve concordar. Poupar discussões é um bom meio de facilitar a sua vida e a dela. A receita é simples: você escuta, fala, beija, abraça, cai, levanta e de vez em quando faz pirraça. Mas, por favor, não a machuque, não a deixe cair. Se isso acontecer, eis um conselho: esteja lá para segurar sua mão, assim como ela estará lá para você. As brigas vão surgir, sexo de reconciliação é incrível, mas lembre-se que ele deve ser usado com moderação para não virar rotina ou coisa banal. Doce demais enjoa, amargo demais entristece. Saibamos pois ser na medida. Saibamos aproveitar as deixas, as horas certas.


Fuja quando precisar, mas informe sua localização. A esqueça por um minuto e se apaixone a primeira vista mais uma vez. Se o simples fato de estar na presença dela retirar uma batida do seu coração, não a deixe partir. Eu sei, eu sei, dizem que quem ama liberta. Eu digo que quem ama dá ao outro mil e uma razões para ficar.