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sábado, 9 de janeiro de 2016

broken hearted girl

Choveu hoje. Lembrei de você. Veio aquela vontade de ficar na cama enrolada em você até você reclamar que seu braço já está doendo e que de qualquer forma você precisará aparecer no escritório. Me lembrei da vez em que você perdeu os óculos e reclamou da bagunça que eu fazia, só pra depois me carregar em seus braços e me levar para o banheiro. Lembrei também da vez em que você fingiu esquecer meu aniversário durante uma manhã inteira para no meio do dia me "sequestrar" e me levar em uma das viagens mais incríveis da minha vida. É, você era o cara... E o melhor de tudo é que você era o meu cara. Eu ainda guardo coisas. Coisas minhas, suas e nossas. O lado bom e o lado ruim, Porque, afinal de contas, é disso que somos feitos. E embora você não esteja mais aqui, tudo que é seu ficou, inclusive eu.

FELIZ ANO NOVO

terça-feira, 20 de outubro de 2015

maybe we'll find a brand new ending

Ela era dona de uma alma cheia de cor. 

Assim como o azul, sabia ser tranquila e se adaptar tanto aos períodos de tempestade quanto a calmaria inquietante. Assim como o vermelho, ela queimava por dentro e por fora e aquecia almas desgastadas com o calor do seu próprio corpo. Assim como o verde, era paciente o suficiente para compreender que cada rio tende a seguir seu próprio ritmo, e eu e você e ela e cada um de nós é um rio sem fim.

Ela era dona do coração mais puro que este mundo já teve a oportunidade de conhecer.

O problema é que esse mundo não está preparado para tantas cores. Esse é um mundo coberto de cinza, cinza do primeiro fio de cabelo até o dedinho do pé. Mesmo assim ela tentou. Deu o melhor de si, usou suas melhores cores para fazer deste mundo um lugar melhor. Embora não seja fácil mudar o que nem ao menos quer ser mudado, ela jamais perdeu a fé.

Imagine então o tamanho de sua surpresa ao notar que em algum momento, no meio do caminho, ao virar uma esquina (não lembro exatamente qual esquina, pois esse é um mundo cheio de esquinas) ela notou que a fé não mais caminhava ao seu lado. A fé havia dado meia volta e seguido outro rumo, outra direção. E o que aconteceu com a menina de mil e uma cores quer perdeu a fé?

domingo, 18 de outubro de 2015

look for the girl with the broken smile



Júlia não fazia ideia. Ela vivia sua vida, acordava todos os dias, tomava banho, escovava os dentes e lutava contra seu cabelo rebelde, para depois deixar um "bom dia" no ar enquanto passava pela portaria em direção à garagem. Chegava sempre atrasada com aquele sorriso envergonhado e um cadarço desamarrado, atraindo o olhar de repulsa da chefe que insistia que tênis all-star não se encaixava no "perfil da empresa". Passava horas digitando, colocando ocasionalmente o bocal da caneta entre os dentes quando surgia-lhe alguma ideia valiosa e mordendo o mesmo bocal com uma força considerável quando algo não se saia muito bem. Almoçava todos os dias, pontualmente ao meio-dia, com Andreia, a senhora da limpeza que lhe contava histórias e histórias sobre o "seu Theodoro", o homem que roubou seu coração e que pelo que ela descrevia deveria ser o homem dos sonhos de qualquer mulher. Corria de volta para sua sala, sempre com alguns minutos de atraso, com aquele cadarço ainda desamarrado e entregava sorrindo ao Seu Rodolfo, o segurança, uma embalagem com seu sanduíche predileto. Saia do trabalho às cinco em ponto, com os ombros doendo e a cabeça cheia de problemas não solucionados. Listava mentalmente os itens existentes (e ainda no prazo de validade) na sua geladeira. Atrapalhava-se com as chaves, chutava os sapatos para um canto qualquer e deitava no sofá enquanto a mente vagava e subitamente a fazia lembrar-se de sua solidão. Quando não pensava sobre ela, Júlia era uma mulher muito feliz e completa, mas vez ou outra não conseguia controlar seus pensamentos e sentia-se só. Ela tinha conquistado tudo o que sonhou e na maior parte do tempo era feliz, sim, mas às vezes essa sensação a inundava como um tsunami. O que aconteceu no meio do caminho? O que ela perdeu? Olhava-se no espelho com frequência e listava seus defeitos com precisão cirúrgica. No fim das contas, acabava abrindo a geladeira para pensar e depois de um bom banho e um bom vinho, esquecia-se da visitante indesejada.

Thomas não fazia ideia. Ele vivia sua vida, acordava todos os dias, tomava banho, escovava os dentes e bebia um café forte enquanto lia o jornal do dia e sorria para o horóscopo. "Você vai conhecer o amor da sua vida hoje." Grande bobagem! Só por ser sagitariano hoje iria conhecer a mulher de sua vida? Quem escreveu esse roteiro? Conta outra. Chegava pontualmente às sete horas ao trabalho, com o terno perfeitamente alinhado, e se encaminhava para sua mesa perfeitamente arrumada. Reclamava mentalmente da internet enquanto fazia algumas pesquisas e enrugava a testa ao notar que já passavam das onze e ele ainda não havia terminado o relatório. Alarmou-se com o barulho de sua barriga, alertando-lhe sobre o horário de almoço, e desceu para fazer um lanche rápido no restaurante da esquina. Voltava para sua mesa pontualmente às treze horas e como normalmente deixava o prédio após o horário de serviço, surpreendeu-se ao notar que havia terminado seus afazeres mais cedo. Levantou-se, pegou suas coisas e deixou o prédio. Enquanto assoviava uma canção dos Beatles, fez sinal para um táxi e nem reparou quando uma mulher passou correndo em sua frente e entrou no táxi que havia acabado de chamar. "Acho que esse táxi é meu". Ela sorriu. "Me desculpe". Ele sorriu e finalmente a olhou. Como alguém podia ter um sorriso tão fantástico? E o que dizer daquele cabelo? Thomas queria cheirá-lo. Cheirá-lo? Sim, cheirá-lo. Ele sorriu. "Pode ficar, eu pego o próximo". "Para onde você vai?" "São Valentim, do outro lado da cidade". "Vou ficar no caminho, podemos dividir." Ele sorriu. Ela sorriu. "Claro". Ele entrou no táxi, ela deu o endereço ao taxista e ele deu o dele. "Meu nome é Júlia." "Meu nome é Thomas." 

Eles não faziam ideia.

sábado, 18 de abril de 2015

for you I’d leave it all

Ela deixou de ser tudo o que era para se tornar tudo o que ele precisava. Escondeu suas tatuagens, marcas da sua vida, marcas da sua história, para viver através da sombra de alguém. Ela apagou sua personalidade e se tornou apenas cinza da fogueira que um dia foi. Se ela apenas soubesse, se ela apenas soubesse que não precisava mudar nada para ser tudo o que eu mais amava. Tudo o que eu mais amava era só ela, ela e todos os defeitos, ela e sua obsessão por café da manhã. Entretanto ela optou por continuar a se rebaixar e a acatar cada desejo obscuro e pitoresco dele, enquanto eu simplesmente assistia a queda de um anjo. Um anjo que perdia suas asas cada vez que optava por se calar ao invés de se expor, um anjo que por ser apenas um ser humano estava condenado a ter a liberdade de escolher. A terrível liberdade de escolher. Tolos são os que pensam que escolher é pura dádiva. Não, escolher também é maldição para quem não sabe ou não aprendeu a lidar com as consequências de seus atos. É como aquela velha frase sobre o efeito que o bater das asas de uma borboleta pode ter em algo que está acontecendo nesse exato momento no Japão. Suas escolhas te afetam, suas escolhas me afetam. É uma grande responsabilidade, eu sei disso, mas você não sabia. Você deixou de viver e passou a ocasionalmente sobreviver. Passou a sobreviver de migalhas de atenção, quando havia alguém que teria te oferecido um banquete de amor. Oportunidades. Escolhas. Todos os erros que te trouxeram até aqui. O momento da ruptura. O momento em que o seu passado e o seu futuro colidem-se e quem você era se sobrepõe a tudo o que você poderia ser. Eu apenas... Apenas não gostaria de estar aqui presenciando o fim do maior sonho que já ousei sonhar.

terça-feira, 24 de março de 2015

starting from zero we've got nothing to lose

*Ou: algum dia eu voltarei a escrever sobre amores possíveis.

Eu não deveria me sentir assim. Supostamente eu não deveria sentir que uma parte de mim foi arrancada sem aviso prévio. Eu não deveria sentir que a qualquer momento o chão será retirado dos meus pés e uma longa e interminável queda terá inicio. Esse não era o plano. No fim das contas, apenas você cumpriu sua parte. Você interpretou o bom moço que não tinha a intenção de ferrar com a vida da garota e que apenas tentou causar o minimo possível de danos e incidentes ao mundo dela. E eu, bom, eu interpretei o papel da garota destinada a cometer os mesmos erros várias e várias vezes, sem nem ao menos se dar conta da merda em que se transformava sua vida. Um merda infinita. De qualquer forma, eu não deveria me sentir assim. Mas o problema é que a ferida ainda está aberta, e dói. Dói ainda mais quando se tenta seguir em frente. É como quando você machuca o joelho andando de bicicleta pela primeira vez e desiste de andar pelo resto da semana porque seu joelho esfolado é uma lembrança constante de que essa experiência pode dar muito errado no fim das contas. Eu sei que um dia o joelho vai sarar e eu vou lá no quintal tirar a poeira da bicicleta e me preparar para o sucesso ou para mais um fracasso. Só que esse momento não é o agora. O agora é o meu joelho esfolado, o agora é a constante lembrança do quanto eu sinto sua falta apesar de tudo. O agora é o "apesar de tudo". Apesar de tudo. Três palavrinhas. Apesar de tudo, tenho que me levantar amanhã e ir trabalhar. Apesar de tudo, tenho que comer pelo menos três refeições diárias. Apesar de tudo, o ônibus ainda demora pelos menos uma hora para chegar. E apesar de tudo, aquela bicicleta ainda está lá no quintal esperando por mim. 

domingo, 8 de março de 2015

it was love at first sight

*Talvez esse texto não faço nenhum sentido para você, acho que é apenas algo que eu precisava expulsar do meu sistema.

A porcaria do amor à primeira vista. É, já aconteceu comigo uma vez. Foi a primeira e única vez em que eu realmente me apaixonei por alguém. E foi, literalmente, uma droga, uma droga letal! O fim foi... Como posso descrever o fim? Foi trágico, é claro, mas foi algo que tomou uma proporção tão grande que eu não acho que posso utilizar simplesmente esse adjetivo para classificar a situação. Digamos então que foi a maldita bomba de Hiroshima encontrando com a porra do Big Bang. É, foi isso. Mas, é claro, não começou assim. Começou como todas as histórias de amor normalmente começam. Uma garota. Um garoto. Um encontro inesperado. Eu não estava procurando nada, nada mesmo, até você entrar por aquela maldita porta. Por que raios de todas as oficinas de teatro, de todas as cidades, de todos os planetas, você tinha que se inscrever justo naquela? Vai ver não dá mesmo para explicar o destino. Mas, sim, voltando a porcaria do amor à primeira vista. Foi apenas um segundo e meio. Eu olhei para aqueles olhos ridiculamente perfeitos e, pronto, estava fodida. Quer dizer, não literalmente (quem me dera). Isso é apenas uma metáfora, soube que está na moda ultimamente. Enfim, espero que vocês entendam de metáfora, porque esse texto inteiro é a porra de uma grande metáfora. Tem algum sentido profundo escondido dentro das entrelinhas da coisa toda. Eu só não posso te dizer qual é, porque afinal isso seria entregar o ouro e eu não faço essas coisas. Eu prefiro ensinar a pescar. Ok, voltando aqueles olhos ridiculamente perfeitos. Acho que eu até poderia ter resistido, se eles não viessem acompanhados daquele sorriso, um sorriso de corpo inteiro, um sorriso de alma e aquela voz marcante, que era a combinação perfeita entre o irônico e o sincero. Eu sei, soa uma tanto brega. Ora, a quem quero enganar? Soa brega pra caralho, mas já aceitei que é impossível fugir da "breguice" quando começo a falar de amor. Amor. Nunca achei que sentiria isso algum dia, acho que para falar a verdade nem fazia questão de sentir. Pelo que ouvi, o amor sempre trazia problemas e de problemas minha vida sempre foi cheia. Essa foi a principal razão de eu ter ido parar naquela aula. Era tanto problema, tanta coisa ocupando minha cabeça, que eu achei que aquilo ali, aquele bando de loucos gritando e se abraçando, fosse servir como válvula de escape para mim. Quem diria que tudo iria resultar no maior enrascada da minha vida? Se amar alguém fosse uma escolha, eu juro que só amaria alguém que me garantisse (quem sabe por assinado, talvez) que iria me amar de volta. Quando eu olhei para ele e senti toda aquela porcaria de borboletas no estômago, coração acelerando e pressão aumentando, eu apenas cruzei os dedos e rezei para que ele estivesse sentindo pelo menos metade da loucura que eu estava sentindo. Mas não, nananinanão. Como diria minha avó, nem tudo é como a gente quer. Às vezes você simplesmente está destinada a se foder sozinha ad infinitum. Se eu pudesse te dar um conselho, seria esse: não crie amizade com alguém que faz seu corpo sentir todo tipo de coisa esquisita, sem nem ao menos tocar em você. E, claro, eu digo isso por experiência própria. Quando você entra na "friendzone", você provavelmente não vai sair de lá nunca. Eu deveria ter começado deixando bem claro para ele o quanto a altura dele era perfeita para mim, como ele fazia o meu tipo e como eu achava hilária qualquer piadinha que ele fazia durante a aula. Mas não, eu comecei tentando criar uma amizade com ele. Amizade? A quem eu estava querendo enganar? Bom, a ele, é claro, mas acabei me enganando também no meio do caminho. Fui acreditando que ser amiga dele era melhor que nada, e que tudo bem ele me fazer sentir aquelas coisas. Afinal, um dia ele iria notar o quanto me afetava e como éramos perfeitos um para o outro, certo? Só que não. Ele não notou no primeiro mês, não notou no quinto mês e não notou no sétimo mês. Após um ano e meio de conversas, eu não podia mais aguentar, nem acreditei que segurei tudo aquilo na garganta por tanto tempo. Quando entre um "bom dia" e um "como vai você?" eu joguei todas as cartas na mesa, ele deu a porra de uma resposta vaga e de duplo sentido. E conseguiu arruinar a coisa toda no dia seguinte quando tentou ser sincero e consertar as coisas. Talvez amizades não possam ser salvas após situações como essas, pelo menos foi assim no nosso caso. Eu realmente gostaria que tivesse dado certo. Que o meu primeiro amor tivesse terminado tão bem quanto havia começado. Mas não foi assim e hoje, eu confesso, tenho medo de nunca mais sentir o que eu senti quando você entrou naquela sala: a porcaria do amor à primeira vista.

quinta-feira, 5 de março de 2015

a four letter word

*Esse texto fica muito mais bonito se for lido ao som dessa música.

Eu sempre tive medo, desde que me entendo por gente. Não consigo lembrar de uma única época da minha vida em que esse sentimento não existiu. Medo de altura, de escuro, de elevador, de atravessar a rua e, o pior de todos, medo de mim mesma. Eu não sou confiável. Nunca me permiti ter grandes sonhos, por que, afinal de contas, de que servem sonhos nas mãos de alguém que possui a habilidade de destruir qualquer coisa que toca? Por isso, decidi não mais sonhar. O medo me prendeu. Me prendeu a pessoas erradas, a caminhos tortuosos e, principalmente, a escolhas precipitadas que me levaram rumo a abismos. Abismos nos quais eu me perdi, abismos nos quais eu decidi ficar.

Medo, meu mais fiel companheiro. Até você aparecer.

Muitos dizem que devemos nos amar primeiro para que outras pessoas possam nos amar. E eu, que sempre achei que isso fosse verdade, havia aceitado que não havia uma saída para mim. Eu só sentia medo, não conhecia nenhum outro sentimento. Era só medo, medo, medo.

Mas então você abriu uma brecha, você deixou a luz entrar, um pouquinho mais a cada dia, e você me estendeu a mão. Não daquele jeito dominador, colocando todos os dedos para trabalhar de uma só vez. Não, com você as coisas sempre são diferentes. Você me estendeu um dedo de cada vez. E enquanto eu estava ali sendo resgatada do fundo do poço, você sorriu para mim, sorriu com todo o corpo, mas principalmente com os olhos. E você me disse que não tinha problema ter medo, e que eu podia confiar em você. Então eu te segui. E foi como seguir uma chuva de estrelas cadentes. Um pingo de cada vez. Uma palavra de cada vez. Um toque de cada vez.

Você foi paciente. Você esperou por mim. Esperou que eu te desse uma chance e eu, por mais estranho que possa parecer, te dei. Você aproveitou a oportunidade e enquanto eu te ofereci apenas um abraço, você me ofereceu "algo mais". Eu não sabia o que era, só sabia que era mais. Aquilo era maior do que o meu medo, maior que qualquer sensação que eu já havia sentido. Como aquilo conseguia caber dentro de mim? Era muito, mas era bom. Era quase confortável. Foi tanto, que não sobrou nada para alimentar o medo. O medo definhou, ficou só amor.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

conversa de elevador

- Sobe?
- Oi?
- Sobe?
- É, é, vou subir.
...
- O que foi isso?
- Acho que o elevador quebrou.
- AI. MEU. DEUS. AI. MEU. DEUS. SOCORRO.
- Já apertei o botão de emergência. Normalmente eles resolvem esses problemas rapidamente.
- NÃO. VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO. EU ACHO QUE EU SOU CLAUSTROFÓBICA.
- Sério? Como assim você acha? Quer dizer, eu posso te ajudar de alguma forma?
- CLARO, PODE SIM. É SÓ FAZER ESSA COISA FUNCIONAR!!! AI. MEU. DEUS.
- Bom, é... infelizmente, não posso fazer isso.
- ACHO QUE NÃO ESTOU CONSEGUINDO RESPIRAR! AI MEU DEUS!
...
- Meu nome é Pedro.
- Oi?
- Eu disse que o meu nome é Pedro. Qual o seu?
- É... Marianna. O meu nome é Marianna.
- Nome legal. Assistiu o Fla x Flu ontem? Jogaço, ein?
- Que? Eu não gosto de futebol.
- Como assim? Que tipo de pessoa não gosta de futebol? E eu aqui pensando que você era confiável.
- E desde quando gostar de futebol define o caráter de alguém?
- Não sei te responder, mas esse parâmetro sempre funcionou para mim.
- Imagine se todo mundo fizesse uso dele.
- Mas, então, se você não gosta de futebol, qual o seu lance?
- Meu lance?
- É, o que você gosta de fazer?
- Eu desenho.
- Que legal! Confesso que eu nunca consegui sair da fase palitinho.
- É, mas eu não sou profissional nem nada. É só um hobbie, sabe? Algo que me anima.
- Sei, sei sim. O que é isso na sua unha?
- Esmalte?
- Quantas cores tem ai?
- Ah, bom, é que não vejo sentido em pintar todos iguais se posso unir diversas cores.
- Tipo o arco-iris.
- É, o arco-iris.
...
- Você tem um cabelo bacana.
- Obrigada. Minha mãe até hoje acha que eu enlouqueci por ter pintado ele dessa cor.
- É diferente. Eu gosto.
- O que foi isso?
- Acho que o elevador voltou a funcionar.
- GRAÇAS A DEUS!
...
- Bom, vou indo então,
- Certo.
...
- Ei! Marianna!
- Oi?
- Eu também odeio futebol.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

what if I'm not what you think I am?

Eu vou fazer isso. Não só porque eles disseram que eu não conseguiria, mas também porque eu tenho dentro de mim essa fé inabalável que me faz seguir em frente mesmo quando o mundo inteiro está contra mim. Eu me preparei, me esforcei, dei o melhor de mim. Se lutei a boa batalha, vencer será apenas bônus, porque é como diz aquele velho ditado "o que vale mesmo é a jornada" e é por isso que irei aproveitá-la e você deveria fazer o mesmo. Arrisque-se. Aposte em coisas que ninguém nunca imaginou serem possíveis. Acredite em pessoas, em sonhos e em recomeços. Cada dia que nasce é sim uma página em branco, novinha em folha, esperando que você (ar)risque(-se), rabisque, apague e borre bastante para que no dia seguinte se possa recomeçar. Recomeçar: eita palavra bonita!

E se me permite, sem pedir nada em troca, lhe darei mais um conselho. Faço o bem, meu bem! Se a energia que você distribui pelo planeta retorna para você, então por quê não fazer o bem sem olhar a quem? Distribua amor em cada esquina, em cada lugar que você entrar. Seja o amor que você quer receber. Somente assim você não precisará encontrar felicidade em outro alguém porque a felicidade estará em você e o que vier depois é só lucro. Lucro de quem te encontrar, lucro de quem contigo quiser dividir a jornada, lucro de quem contigo quiser caminhar de mãos dadas sem exigir nada em troca. Afinal, esse outro alguém também será só amor e felicidade. Seja o máximo de você que puder ser.

Mas acima de tudo, seja paciente. Eu te disse que faria e farei. Quando e como não vem ao caso, porque saber esperar, saber planejar é arte de quem nasceu para viver. Se a paciência faz moradia em teu coração, não é qualquer tempestadezinha que vai derrubar teu barco. Quando se tem vontade, quando se quer algo de todo coração, a gente rema contra a maré, a gente faz chover em SP. Então vai a luta, não desiste não. E grita isso para aquela voz irritante que insiste em te dizer que você não é capaz. Diga para ela desistir porque ninguém derruba quem tem por meta tornar memorável o pouco (ou muito) tempo que lhe foi dado nessa linha tênue chamada vida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

sobre o direito de chutar o pau da barraca e falar palavrão

Dias desses navegando pelo Facebook me deparei com um texto que a incrível Tove Lo, cantora sueca cujo talento merecia ser muito mais conhecido, divulgou. O texto em questão, postado no blog oficial da cantora, trazia um desabafo sincero, daqueles que pessoas normais (como eu e você) fazem quando se sentem incomodadas com algo. 

Com o título "Why Say FUCK?", o texto fala sobre a reação da cantora sueca após ouvir no rádio uma apresentadora falando que determinado trecho da canção "Talking Body", faixa escrita por Tove, causava nela certo desconforto e que provavelmente algum produtor deve ter forçado a cantora a se expor tanto assim. O trecho em questão é o seguinte: “if you love me right, we fuck for life” (tradução: se você me amar corretamente, vamos foder para sempre). 

De acordo com a apresentadora, o uso da palavra FUCK (foder/transar) era bastante inadequado e com toda certeza Tove Lo deveria estar sendo obrigada a escrever e apresentar letras desse tipo. Afinal de contas, por que uma mocinha escreveria coisas desse tipo, não é mesmo?

Tove resolveu expor sua opinião e em um texto sucinto, embora digno de aplauso *clap, clap*, falou sobre a forma como algumas vezes a mídia tende a "vilanizar" os produtores e como em outras vezes a própria sociedade tenta limitar ou descriminar os indivíduos e impedir que estes se expressem da forma que acharem mais apropriada, ou seja, fazendo uso de uma coisinha chamada liberdade de expressão.

O texto da cantora me fez pensar muito sobre como em diversas situações na vida nos controlamos afim de agir de determinada maneira só porque todos acreditam ser socialmente aceitável. Ao participar de determinadas rodas de conversas, por exemplo, muitas vezes nos sentimos coagidos a agir de determinada forma e controlar possíveis explosões, digamos assim. Falar sobre o último livro de Dostoiévski (que você odiou) ao invés daquele New Adult (que você amou), que provavelmente você seria rechaçada se começasse a discutir sobre, é outro exemplo de como a nossa tão desejada liberdade pode estar sendo controlada sem nem ao menso nos darmos conta. Ou até mesmo quando queremos gritar um grande e enorme "VÁ A MERDA", há muito tempo entalado na garganta, para alguém que já pisou e sapateou em você, mas nos contentamos em dizer "tudo bem" porque ser tão agressiva seria de mão gosto. Vale ressaltar que de forma alguma estou aqui defendendo a violência, mas sim o direito a liberdade.

Pensando com meus humildes botões fiquei me questionando: a apresentadora de rádio teria a mesma opinião se um homem cantasse tais letras? Talvez sim, talvez não.

Talvez a raiz do problema se encontre naquela conversa passada de geração a geração... Meninas não xingam. Meninas se comportam, enquanto homens arrotam alto e proferem palavras consideradas de baixo calão. Mulheres são silentes, e consequentemente possuem pensamentos silenciosos, enquanto o homem pode por direito expressar seus pensamentos e insatisfações de maneira alta e clara. Até a arte nos poda! Mulheres escrevendo/falando sobre sexo? Há muito tempo (e como você podem ver, algumas vezes até mesmo nos dias de hoje) já foi considerado fim de mundo. Fico imaginando como a pobre escritora que pela primeira vez pegou uma caneta e disse "quer saber? vou escrever o que penso sobre uma boa foda" foi recebida.

Bom, não sei se estou divagando ou se me farei entender, mas creio que o ponto principal aqui era, assim como a Tove, usar desse espaço para desabafar. Eu também possuo o direito de gritar, falar palavrão e escrever sobre foda, sexo e afins. Se quero falar sobre como aquela autora é fabulosa, e usar palavrões para elogiá-la, eu vou falar porque a voz me foi dada para que eu fizesse uso dela. Eu me expresso da forma que eu quiser, e falar palavrão ou usar roupas mais provocativas não faz de mim menos mulher, nem tão pouco uma marionete controlada por Fulano ou Cicrano que somente cede às pressões do mundo externo.

Tove se orgulha de escrever suas próprias canções e colocar nelas o que sente, sem se preocupar com o que está mais aceitável ou é considerado mais "feminino". Ela é apenas humana e possui uma voz que quer ser ouvida. Já pensou se tivéssemos mais Toves no mundo?

*O texto que inspirou essa postagem você pode ler aqui.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

rotaroots // das coisas que eu sempre quis dizer (mas nunca disse)

*Esta postagem é um dos temas do mês de janeiro da blogagem coletiva/meme do rotaroots, grupo criado para trazer de volta os bons tempos ~a era de ouro~ da blogosfera, incentivando assim a produção de conteúdos criativos e autorais.

Querido F.,

Sinto sua falta. 

Sei que essa é a pior coisa para se dizer (especialmente hoje), mas é a mais pura verdade e você pode confirmar isso pelo fato de que estou lhe escrevendo em um alto estágio de embriaguez. Como você sabe, após algumas doses a única coisa que sai de mim é a verdade. 

Você deve estar se perguntando porque estou te enviando uma carta logo após ter dito que era melhor nos afastarmos por um tempo, não é mesmo? Bom, acontece que eu queria me desculpar. Só que agora é tarde e nós dois sabemos disso. O tempo para desculpas já se foi. Mas irei aproveitar essa onda de sinceridade para deixar algo bastante claro aqui: a culpa é toda minha. Sim, toda minha.

Posso até imaginar você nesse exato momento balançando a cabeça e dizendo que ninguém tem culpa nessa história, mas sinto te informar que dessa vez eu tenho, sim. Eu sempre crio coisas em minha mente perturbada que não necessariamente são reais. Eu distorço cada palavra que as pessoas me dizem e transformo-as em algo bem maior e mais significativo do que de fato são. Você não teve culpa. Eu projetei em você todos os meus anseios e acreditei piamente que todo o sentimento que eu sentia era correspondido. Entretanto, como dizem por aí, nem sempre a reciproca é verdadeira. 

Eu queria voltar a ser sua amiga. Conversar com você novamente, rir das suas piadas e te perturbar por causa da sua idade como se nada tivesse acontecido. Porém, isso não é mais possível. Sei que você provavelmente aceitaria minha amizade, porque você é uma das melhores pessoas que já conheci, mas acontece que tenho essa vergonha gigante me consumindo depois do que aconteceu e acredito que jamais conseguiria trocar uma única palavra contigo sem imaginar o quanto você deve estar me achando ridícula. E esse pensamento provavelmente vai me corroer para sempre. Me arrisquei e perdi tudo. Essa foi a segunda vez. Nunca mais farei isso novamente, já aceitei que nessa área estou fadada ao fracasso.

Ninguém é obrigado a amar ninguém, sabe? Eu errei ao amar esperando ser amada de volta. O amor não deve ser assim. Temos que amar pelo simples ato de amar, sem esperar nada em troca. Então, mais uma vez te digo: a culpa não foi sua. 

Eu aprendi minha lição. 

Só espero que você seja feliz.

Com amor,

D.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

I remember it well

Bom, a primeira vez que eu te vi. Quando foi mesmo? Ah, sim. Primeiro dia, primeiro horário, sala de aula. Te vi sentada na última carteira fazendo algo que nenhum dos outros 37 alunos ali presentes estava fazendo: prestando atenção na aula. Realmente prestando atenção, sabe? Você tinha até aquela ruguinha na testa que você tem quando está concentrada. E você tinha aquele cabelo curto e bagunçado com essa franja que insistia em cair por cima dos seus óculos. Sim, você usava óculos e aparelhos e all stars. Sei que você não gosta de lembrar desse seu estilo, digamos assim mas eu me lembro. Afinal, como eu poderia esquecer? E como eu poderia resistir? Você estava tão fofa naquele dia. 

Eu sei, eu sei. Fofa não é exatamente um dos adjetivos que as garotas gostam de ouvir, mas fazer o que se foi a primeira coisa que veio em minha mente? Nunca fui bom com adjetivos. Para falar a verdade, nunca fui muito bom com as palavras. Esse, como todos nós sabemos, sempre foi o seu dom! Eu fazia contas, consertava coisas, contava piadas e gostava de cozinhar.

Então por me faltar palavras, ou por outras razões, sempre achei que você deveria ser transformada em um adjetivo, um que fosse sinônimo de perfeição ou algo assim. Como alguém poderia ser tão angelical e ao mesmo tempo ter essa chama incandescente no olhar que liquidava com a minha capacidade de falar. Eu, que sempre fui o "fanfarrão" da turma, travei completamente após te dizer o primeiro "oi". Mas não me culpe. Por favor, não me culpe! Foi você que estava com aquela caneta na boca e aquele perfume só seu, uma mistura perfeita entre algo doce e forte. Eu só queria ficar ali te olhando e sentindo aquele cheiro. 

Mas ai você balançou as mãos na minha frente e me perguntou se eu precisava de ajuda. Eu não sei, eu precisava? Eu havia esquecido completamente como funcionava todo esse lance de se comunicar, usar as palavras... transformá-las em frases então, nem pensar.

Quando finalmente me recompus, perguntei se você estava indo para Calculo II naquele momento e você confirmou, Logo perguntei se poderia levar suas coisas para você. Uma expressão estranha cobriu seu rosto. Parecia que você estava entre surpresa e ofendida, mas quando respondeu que sim, eu poderia carregar suas coisas, eu sabia que essa resposta iria mudar todo a minha semana, talvez até a minha vida, de alguma forma.

Conversamos sobre tudo e nada durante todo o caminho até a sala, entretanto quando chegamos você agradeceu a ajuda e sentou-se em sua carteira habitual. Resolvi me sentar em minha carteira habitual também, mas se antes eu já não prestava atenção em Calculo II, hoje o professor não estava conseguindo conquistar nenhum segundo da minha atenção. Eu fiquei te admirando durante 1 hora inteira. Viu o que você fez comigo?

É eu confesso, naquele semestre eu posso ter te perseguido um pouco, porque, convenhamos, você era bastante difícil, mas nunca me arrependi. Deu trabalho, mas conquistei sua amizade aos poucos e conquistei também algo extremamente valioso para mim e que até hoje eu luto para manter aquecido e forte todos os dias: o seu amor. 

(...)
Trecho dos votos de casamento escritos por P para C, em 2001.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

why'd you have to wait to find me?

Um verdadeiro ato de bondade. Era tudo o que ele precisava encontrar. Não seria tão difícil, não é mesmo? Em um lugar povoado com bilhões de habitantes, seria como "tirar doce da boca de criança" (fazendo referência a uma expressão comumente utilizada entre eles). Finalmente ele teria seu desejo realizado. Asas... como será a sensação de finalmente possuí-las? Imaginou a liberdade. Poderia desbravar os quatro cantos da galáxia, poderia presenciar os momentos mais mágicos, sem falar na infinidades de contribuições que poderia trazer para seu trabalho. Era chegada a sua vez! Cumpriria sua missão e voltaria para casa, se assim poderia chamar o local em que normalmente passava suas horas, horas que para ele significavam apenas uma pequena fração da eternidade.

Pegou a mochila que carregava e a pequena folha na qual havia escritos os locais que visitaria para dar início a sua busca. Uma casa antiga e atrativa na qual se encontrava um aviso que dizia "todos são bem-vindos" chamou sua atenção e resolveu que tentaria ali encontrar um local para dormir e alimentar-se. "Mataria dois coelhos com uma só cajadada", pensou. Ele estava realmente começando a se habituar com os famosos ditos populares desse pessoal. Sorriu ao reparar que estava de bom humor.

Ao entrar na casa notou que havia ali pessoas muito bem vestidas ouvindo atentas o discurso de um velhinho simpático, que ao notar sua presença se calou. Os olhos da audiência acompanharam os do velhinho e julgamentos começaram a serem nascer em cada olhar. Ele se sentiu envergonhado, não soube por quê, afinal nunca havia sentido tal sentimento. Até que uma voz se levantou sobre as outras e declarou em alto e bom som que ali não era lugar para pessoas como ele. Ao olhar para si mesmo vestido em trajes simples, roupas puídas e manchadas, e com o corpo coberto por tatuagens, não entendeu a colocação daquela pessoa e perguntou se poderiam conseguir um local para que ele descansasse e comesse. O velhinho pediu que ele saísse imediatamente e que pensasse seriamente nas suas ações. Confuso, ele deixou a casa e saiu a caminhar e pensar em como um lugar no qual "todos são bem-vindos" poderia não tolerar sua presença.

Continuou a andar por horas e horas e tudo o que viu foram portas sendo batidas em sua cara. Uma jovem que passava lhe disse que são tempos difíceis e por isso ninguém em sã consciência concederia um teto para alguém como ele, afinal nunca se sabe. Novamente, ele não entendeu o que ela quis dizer. Estaria ele com dificuldades de compreensão do idioma ou tinha um pensamento demasiadamente inocente?

Após dois dias já começou a pensar em desistir. Asas não são grande coisa, não é mesmo? Muitos não as têm e se viram bem por aí. Sentou-se em um banco de praça e poe-se a refletir. Alertaram-lhe que não seria uma tarefa fácil, mas a fé dele era mesmo maior. Acreditou que encontraria traços do bem aqui deixado há milênios atrás em algum desses seres, mas os donos dos passos que caminhavam rápidos pela praça e dos olhares que nunca se cruzavam pareciam ter seus corações congelados. O que havia acontecido?

 De tanto pensar, adormeceu. 

Ao abrir os olhos deparou-se com um menininho que o observava bem de perto com metade de um pão na mão. O menino sorriu e perguntou-lhe se tinha fome. Sem ao menos esperar por um resposta, repartiu o pão e entregou-lhe metade. Seus olhos brilharam quando ele aceitou o pedaço oferecido e começou a comer. "Se quiser pode dormir melhor debaixo da minha árvore", disse o menininho. "Você tem uma árvore?", ele rebateu sorrindo. "Tenho. Tem um ótima sombra. Posso dividir com você", respondeu o menino. 

Ele não conseguia acreditar. Não era possível! Nem tudo estava perdido, no fim das contas. Ele havia encontrado uma faísca.
You Found Me by The Fray on Grooveshark

domingo, 28 de dezembro de 2014

we're better together

Somos tão iguais. Gostamos de dias chuvosos, de caminhadas na praia, de admirar o pôr do sol e muitas outras coisas que todos os nossos amigos definem como "clichê". Gostamos até das mesmas músicas (o que, por sinal, nos salvou de muitas possíveis discussões acerca de que show deveríamos assistir). Você e eu somos tão esquisitos e isso é bom. Afinal, passei boa parte da minha vida me sentindo uma extraterrestre nesse planeta até te conhecer e ver que existe gente como eu, e até existe gente que admira minha esquisitice.

Apesar de todas as nossas semelhanças, somos também muito diferentes. Mas até isso é bom, sabia? Aprendi muito com nossas diferenças. Aprendia a ceder e também a brigar pelo que eu quero, especialmente quando o que eu quero é um músico de 24 anos, que pensa como um senhor de 70 anos.

Acredito que minha vó nos definiu super bem naquele churrasco de domingo no qual ela nos pegou brigando pelo controle remoto ao mesmo tempo em que gargalhávamos e perdíamos o respiração. Ela disse "vocês são mesmo duas caras de uma mesma moeda". Confesso que não havia dado tanta atenção naquele dia, mas agora vejo. Não era mais uma das divagações da vó Pérola, era a mais pura verdade. Eu e você somos tão um, que precisamos estar em dois corpos distintos para atender a toda complexidade do nosso ser.

Não faz mal ser um ser só, moço. É tão bom me ver em você de vez em quando, e é tão bom quando você diz que enxerga um pouco de ti em mim também.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

some kind of sign

*Ou: confissões de uma formanda que não sabe se ri ou se chora com o final de sua primeira graduação.

Tanta coisa a ser feita e tão pouco tempo. Mal uma jornada termina e cá estou eu tomando novos rumos. Eu só não quero ficar parada, afinal o tempo não espera que eu tire umas férias de dois anos para somente depois seguir sua velocidade normal. Eu continuo envelhecendo, as pessoas continuam tocando suas vidas e se eu não viver a minha, quem viverá por mim?

Carrego em mim tantos sentimentos, muitos deles costumo espalhar pelos quatro cantos do mundo, já outros prefiro guardar comigo (às vezes por vergonha, às vezes por puro egoismo). Coleciono também lembranças, momentos únicos vividos com pessoas incríveis. Sinto saudades. Tenho sonhos. Tenho pressa. Apesar de saber que tudo acontece no tempo determinado, tenho medo. Será que minha hora vai chegar?

Entrego tudo em tuas mãos. Confio em ti, porque desde sempre me guiastes através dos melhores e piores caminhos. Você nunca me deixou na mão. Vou recomeçar, ou melhor dizendo, vou continuar. Farei agora o que faz bem ao meu coração. Nada foi em vão, tudo contribuiu com o meu crescimento. Sou tão maior agora. Tenho um mundo inteiro dentro de mim. Sou gigante e estou preparada. Estou muito assustada por estar tão certa da minha decisão, mas estou preparada. Como diria o grande Erasmo, pode vir quente que eu estou fervendo!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

i’m not gonna try

Eu costumava me olhar no espelho e notar cada minimo defeito que eu tinha, fosse ele um arranhão de queda ou aquela boa e velha gordurinha localizada. Eu me olhava no espelho e só via erros, erros e mais erros. Por que eu não tinha um nariz menor? Por que eu não era mais magra? Por que eu não era mais baixa? Por que eu tinha que usar óculos? Se me perguntassem naquela época se eu gostaria de nascer de novo (no corpo da Gisele Bündchen talvez), eu não pensaria duas vezes e responderia "sim". 

Naquela época eu queria me encaixar, eu queria que os garotos me vissem, que minhas amigas me elogiassem, eu queria ser especial e ser especial significava ser perfeita de acordo com o padrão de perfeição que todo mundo acreditava ser o correto. Então eu comia cada vez menos, usava cada vez mais maquiagem e jamais saia de casa sem estar usando um calça apertada e de marca que me fazia sentir ainda mais magra.

Por fora eu era apenas uma adolescente magra e tímida, mas por dentro eu gritava. Quando eu chegava em casa e caia em lágrimas no sofá da sala mesmo, meus pais me perguntavam se eu estava bem e eu afirmava que sim, eu estava ótima, ou, pelo menos, eu iria ficar. Eu iria ficar ótima quando eu perdesse aqueles malditos cinco quilos. Eu iria ficar ótima quando ele finalmente caminhasse em minha direção e dissesse o quanto me achava especial. Eu iria ficar ótima quando meu cabelo parasse de querer voar em todas as direções assim que eu saísse de casa. Eu iria ficar ótima.

Eu costumava me olhar no espelho e notar cada minimo defeito que eu tinha. Tempo, tempo, tempo.... tempo que me fez enxergar cada qualidade maravilhosa que eu tinha, como eu te agradeço. Talvez eu realmente não seja a pessoa mais magra que você já conheceu, talvez eu não seja a mais doce das garotas, e talvez eu ame, adore, idolatre comida. Talvez eu realmente fuja do padrão, mas que saber de uma coisa? Hoje, feliz da vida, eu te digo: não quero mais me encaixar em um padrão. Eu quero ser o meu próprio padrão. Não quero ser magra, quero estar saudável e de bem comigo mesma. Quero gostar de mim por todas as qualidades interiores maravilhosas que eu tenho e  até pelos meus defeitos porque eles também são parte de mim. Se você ama com tudo de bom e de ruim que eu tenho, então você realmente merece que eu retribua esse amor. 

Então, eu te disse que iria ficar ótima, não foi? Só não imaginei que iria ficar incrível. Olha só o que o tempo fez comigo!

domingo, 14 de dezembro de 2014

the lost letter

Eu conheço você. Sei que você odeia tardes quentes e idolatra dias chuvosos. Sei que você prefere recusar ótimos convites para terminar de ler aquele livro que você está devorando desde o inicio da manhã. Sei bem o que te faz sorrir e sei também o que te faz chorar. Conheço todos os teus defeitos, tuas qualidades, tuas manias. Eu conheço e reconheço o teu cheiro. Sinto tua aproximação, mesmo quando tentas me surpreender.

Mas tudo está caindo, meu bem. O tempo está passando de maneira surpreendentemente veloz e estamos envelhecendo. Eu e você. Mãos cada vez mais enrugadas, olhos cada vez mais cansados e com uma memória que teima em se afastar de nós. Esquecemos as partes engraçadas das piadas, os nomes de amigos próximos e algumas datas especiais. Sua mão não segura mais a minha com tanta firmeza como antes, embora eu ainda sinta o carinho e energia que seu toque traz ao meu corpo. Conforme os dias passam, eu assisto a sua dor que nada mais é do que um reflexo da minha própria dor. Agora tudo custa muito caro, tudo exige muito de nós. Até mesmo levantar todas as manhãs e aproveitar o dia não chega a ser tão prazeroso quanto já foi um dia. 

Sinto que eles estão chegando, afinal é segunda-feira e o meio-dia se aproxima. Eu provavelmente deveria estar arrumado e sentado no sofá esperando o momento em que a porta será aberta e os gritos e risadas invadirão a casa. Mas ainda estou aqui observando uma senhora de cabelos grisalhos a se admirar no espelho. Este momento mágico se repete todas as segundas nesse mesmo horário. A qualquer momento ela olhará para mim e sorrirá. Sei disso porque é o momento mais esperado da semana. E lá está ele. O seu sorriso. O mesmo sorriso da garota que entrou naquela sala de aula carregando uma enorme bolsa no primeiro de aula na faculdade. O mesmo sorriso da mulher satisfeita ao ensinar sua filha a ler. E o mesmo sorriso da senhora que caminhou com o filho até o altar anos atrás.

Colocando o segundo brinco, você olha para mim e pergunta se eles já chegaram. Não respondo. Quero aproveitar mais alguns segundos da sua magia. Eu conheço você. Conheço há muito tempo essa magia, mas nem por isso deixo de me permitir ficar encantado. Você é mesmo uma em um milhão, meu bem.

Então ouço grito vindos da sala. Eles chegaram. O momento passou. A vida segue e eu volto a esperar pela próxima segunda-feira.

sábado, 13 de dezembro de 2014

need ur luv


"Satisfaça minha alma", disse Bob. "Fique ao meu lado", disse Ben. "Eu quero segurar sua mão", disseram Paul e John. Estavam lá todas as dicas, bem na sua frente. Não há nenhum quebra-cabeças a ser montado ou mistério a ser resolvido. Mulher é bicho simples. É só saber ficar ao lado dela e se afastar também, nos momentos em que ela disso precisar.

Se ela te disser que dois mais dois são vinte e sete, você provavelmente deve concordar. Poupar discussões é um bom meio de facilitar a sua vida e a dela. A receita é simples: você escuta, fala, beija, abraça, cai, levanta e de vez em quando faz pirraça. Mas, por favor, não a machuque, não a deixe cair. Se isso acontecer, eis um conselho: esteja lá para segurar sua mão, assim como ela estará lá para você. As brigas vão surgir, sexo de reconciliação é incrível, mas lembre-se que ele deve ser usado com moderação para não virar rotina ou coisa banal. Doce demais enjoa, amargo demais entristece. Saibamos pois ser na medida. Saibamos aproveitar as deixas, as horas certas.


Fuja quando precisar, mas informe sua localização. A esqueça por um minuto e se apaixone a primeira vista mais uma vez. Se o simples fato de estar na presença dela retirar uma batida do seu coração, não a deixe partir. Eu sei, eu sei, dizem que quem ama liberta. Eu digo que quem ama dá ao outro mil e uma razões para ficar.